Introdução

Em determinada altura do ano, mais especificamente no Inverno, ocorrem festas cíclicas, que no Nordeste Transmontano têm uma forte vinculação não só com o solstício de Inverno, como também com a agricultura, que foi durante muito tempo o principal sustento destas povoações rurais. Pode-se assim afirmar que as festas de Inverno, que ocorrem no ciclo dos doze dias (Van Gennep), do Natal aos Reis, bem como o Carnaval, não seguem propriamente o calendário, ou os meses tal como os conhecemos, seguindo sim «os ciclos meteorológicos e agrícolas» (DIAS, 1984:190).

No entanto, ao longo do tempo, foi-se gradualmente perdendo o cariz simbólico destas festas, que foram progressivamente adaptadas aos tempos modernos e à subsistência das comunidades em que ocorrem. Como exemplo desta adaptação das festas aos tempos modernos salienta-se o facto de o vinho ter sido substituído por novas bebidas, o facto de a música tradicional ter dado lugar à aparelhagem, bem como a punição dos rapazes que não se apresentem na ronda da alvorada passar a ser um banho involuntário em águas frias.

Outros dois factores ou questões importantes são a intervenção dos media na divulgação destas festas, e a questão da patrimonialização, por exemplo. O que se fazia para manter o bem-estar faz-se hoje para manter a tradição; o que se fazia – e ainda se faz – para a comunidade é hoje atentamente olhado pelos olhos dos forasteiros, que sobretudo no Carnaval visitam algumas regiões para poder ver e viver a festa in loco. Os grupos dos mascarados também podem ser convidados a participar em desfiles (como é o exemplo do Desfile da Máscara Ibérica, com várias edições ao longo dos últimos anos em Lisboa), actuando fora do seu lugar e do seu tempo. Algumas festas chegam a ter impressos em papéis distribuídos as sucessivas etapas ou momentos mais significativos, o que não é necessário para os habitantes locais, que conhecem bem a sua festa, mas sim para aqueles que a visitam.

Relativamente às festas que ocorrem no ciclo dos doze dias (Van Gennep), apesar de em alguns casos a sua preparação se iniciar, por exemplo, no dia um de Novembro, podemos entender que estas comemorações, nomeadamente a festa dos rapazes, instauram temporariamente uma nova hierarquia social, uma vez que são os jovens a estabelecer o seu grupo próprio e restrito, que domina ao longo das festividades e dos vários acontecimentos das mesmas. Assim, podemos entender estas festas não só como um rito de passagem mas também como servindo para unificar e reforçar a identidade de cada região em que a festa ocorre. As várias etapas ou elementos que nelas confluem provam isso mesmo. Vejamos: a crítica social, e bastante satírica, que menciona os acontecimentos que fogem à norma e foram praticados por habitantes locais, pode ser entendida como sendo um elemento de expurgação, que pretende que na localidade se mantenham regras de conduta socialmente sancionada; distribuição alimentar e a comensalidade alargada que ocorre nas designadas Mesas de Santo Estêvão, relacionando-se intrinsecamente este momento do ciclo anual na sociedade agrária do passado; os ritos de passagem dos rapazes pretendem afirmá-los e inseri-los dentro da sociedade, embora as raparigas venham conquistando um lugar nas cerimónias que corresponde à nova situação social que conseguiram.

A comemoração do Carnaval, por sua vez, surge integrada no fim do Inverno. Toda a folia a que assistimos durante este momento festivo pode servir para avisar que se aproxima um período de Quaresma e que, além disso, se irá entrar num novo ciclo: a primavera. É por isso que muitas vezes, nesta festa, assistimos à queima do Entrudo.

 

Fontes e Bibliografia:

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PEREIRA, Benjamim [coord.], 2006, Rituais de Inverno com Máscaras, Bragança, Instituto Português de Museus.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo