Bemposta

Nesta localidade o “chocalheiro”, uma “entidade mágica, sombria, e inquietante, temida mas necessária” (PEREIRA, 1973:102), aparece nas ruas dois dias: 25 de Dezembro, dia de Santo Estêvão, e 1 de Janeiro, dia da festa do Menino, logo pela manhã – estes são os “dias do chocalheiro”.

O homem que enverga a máscara – esta é comunitária – fá-lo, geralmente, para pagar uma promessa, o que demonstra um carácter de sacrifício ligado a esta máscara. Este cargo é leiloado pelo mordomo da localidade. No entanto deu-se uma alteração no modo como o leilão, o rito das “mandas”, é feito: antigamente era rodeado de mistério, feito na casa do mordomo, onde cada pretendente ao cargo fazia separadamente a sua proposta (quantitativa) que iria fazendo com que outros homens – só o sexo masculino pode cumprir este papel – fossem sucessivamente desistindo. Hoje em dia o leilão faz-se publicamente, ainda que possam ser pessoas amigas daquele que quer envergar a máscara que se encontram presentes no leilão, em seu nome – assim, julgamos, mantém-se o anonimato daquele que será o “chocalheiro”, cumprindo todo o secretismo em volta do uso desta máscara.

No fim do leilão que ocorre duas vezes, a 24 e 31 de Dezembro, o mordomo oferece a sobreceia.

Aquele que se irá vestir de “chocalheiro” mantém-se em casa do mordomo, da qual ambos, juntamente com um acompanhante (guia), partem para efectuarem a ronda pela aldeia – é o mordomo que recebe as esmolas dadas ao grupo – no dia de Santo Estêvão.

Percorrendo todas as casas da aldeia, dirigindo-se cortesmente aos habitantes das mesmas, que lhe vão dando esmolas (monetárias ou produtos regionais), é feito o peditório para Nossa Senhora e para o Menino. É deste modo que se paga a promessa.

Dá-se depois um almoço em casa do mordomo, no qual está presente o “chocalheiro” (neste momento já terminou as suas funções), aqueles que participaram no peditório, a família do mordomo e os seus convidados.

Pode ainda fazer-se uma ronda. Se alguém tiver interesse em envergar o fato do “chocalheiro”, poderá fazê-lo, efectuando uma ronda em que pede esmola para si mesmo. A única restrição, para além de não entrar na igreja, é devolver o fato e a máscara, em casa do mordomo, antes do pôr-do-sol. Além disso, durante a tarde, o “chocalheiro” actua numa linha de maior liberdade, perseguindo as crianças e as mulheres.

No momento da festa do Menino, ou seja, no Ano Novo, todos os rituais previamente citados se repetem. Convém só acrescentar que o “chocalheiro” espera o povo após a missa, para receber esmola para si mesmo.

Como temos visto, esta máscara e a sua utilização revestem-se de um carácter quase mágico. Muitos afirmam que das várias máscaras presentes nas Festas de Inverno a do “chocalheiro” da Bemposta é aquela a que não se fica indiferente, é aquela que faz com que, realmente, quem com ela se encontre pare e tenha a sensação de estar noutra realidade.

Os factos anteriormente descritos, muito provavelmente, relacionam-se, em primeiro lugar, com os elementos que conotam esta figura com o Diabo, e são visíveis na própria máscara. Além disso, muitos são a favor da circunstância do “chocalheiro” ser uma figura catalisadora. Como já foi afirmado muitos acreditam que durante esta altura do ano as almas dos mortos coabitam com os vivos. Esta figura terá como função final, e como afirma Benjamim Pereira, “a protecção da comunidade” e o “retorno à normalidade” (PEREIRA, 2006:30). Ou seja, esta máscara afasta o mal, os perigos, como se efectuasse uma função de exorcismo.

 

“Chocalheiro” da Bemposta

Fato

O fato do “Chocalheiro” da Bemposta é uma espécie de fato-macaco azul, feito de algodão e com um capuz, do qual pende uma bexiga de porco.

Na parte da frente do fato encontram-se botões vermelhos. Nas costas do fato há uma caveira pintada de vermelho.

A tiracolo tem um tecido enchido com serradura que imita uma cobra.

Na zona da cintura, na parte de trás, tem um chocalho e uma “cauda de crina de animal” (PEREIRA, 2006:29) e na mão usa uma tenaz.

 

Máscara

A máscara é feita de madeira, sendo o seu fundo de cor preta. Alguns elementos do rosto como os olhos (vazados), o bigode e a boca – geralmente esta está meio aberta e num dos seus cantos podemos vislumbrar a língua – são pintados de vermelho.

As sobrancelhas ou a barba podem ser compostas de pêlo.

Outro elemento presente nas máscaras, e pintados de vermelho, são duas maçãs, uma num dos lados da máscara e outra na testa, que está a ser comida por uma serpente (esta também lhe pode sair da boca).

Esta máscara possui dos chifres, nos quais podem ser espetada duas laranjas.

 

Fontes e Bibliografia:

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PEREIRA, Benjamim [coord.], 2006, Rituais de Inverno com Máscaras, Bragança, Instituto Português de Museus.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.