Carnaval

Nesta região a comemoração do Carnaval está intrinsecamente relacionada com a agricultura e com anunciar de um novo período. Assim, o Carnaval está ligado a um rito que marca o fim do Inverno, anunciado o nascimento de um novo período no calendário, a Primavera, que é então comemorada e anunciada nesta festa que, alguns autores, associam às antigas cerimónias da Natureza. Para confirmar este aspecto basta confrontar o significado etimológico da palavra Entrudo – a designação de Carnaval para esta época festiva é mais recente –, que provém do latim Introitus, cujo significado é “entrada”, ou seja, a já mencionada anunciação de um novo período.

Além desta relação do Carnaval com o final do Inverno e início da Primavera, podemos ainda denotar outra relação que será pertinente mencionar. Como sabemos, a seguir ao período carnavalesco, ou seja, à paródia e aos excessos, surge a Quaresma, um período de contenção. Então o Carnaval pode ser considerado como sendo o clímax das festas de Inverno, no qual se usa e abusa da liberdade – como se torna legível na actuação libertina dos “caretos” e nos actos de denúncia social que ocorrem em várias localidades – ao qual se seguirá a Quaresma. Além disso, e como relembra Paulo Raposo no seu artigo presente no livro Rituais de Inverno com Máscaras, a etimologia do termo Carnaval provém “do latim carnevelare ou carnevale (adeus à carne)” (RAPOSO, 2006:78), o que o associa imediatamente ao período da Quaresma.

O mascarado prepara esta passagem desempenhando funções de conotação sagrada. Por exemplo, a crítica social que ocorre nestes dias pode ser vista como um rito de purificação das comunidades – em Lazarim ocorre um testamento burlesco, no qual é criticado o comportamento de uma camada populacional.

Nos últimos anos o Carnaval de Podence tem sido bastante divulgado pelos media, o que fez com que várias pessoas se dirijam a esta localidade com o intuito de assistir e participar neste Carnaval. Além disso, e como os “caretos” têm sido convidados a actuar em desfiles ou a fazer representações fora da sua localidade, ocorreu um alargamento do grupo de “caretos”, para dar a possibilidade aos jovens e não só de viajarem, quer nacional como internacionalmente.

A título de curiosidade é importante alertar que esta festa carnavalesca tão aclamada, nos anos 60 e 70, viu a sua continuidade afectada. Estas festividades foram reprimidas durante o Estado Novo (1993-1974) e nos anos 60 entraram em declínio devido à guerra colonial e ao movimento migratório que afastou as camadas mais jovens – as que asseguravam a permanência da festa – dos meios rurais. Foi no ano de 1985 que reapareceram com todo o seu esplendor e que se mantém até hoje.

 

Fontes e Bibliografia:

GODINHO, Paula, Setembro 2009, Mercardorização da diferença? Tempos, lugares e usos das máscaras transmontanas, Encontros Ibéricos Os limites do património: consumo e valores do passado, Barcelona.

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PEREIRA, Benjamim [coord.], 2006, Rituais de Inverno com Máscaras, Bragança, Instituto Português de Museus.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.