Festa dos Rapazes

A festa dos rapazes é uma das designações pelas quais podem ser conhecidas estas festas de Inverno, também conhecidas como do Natal, dos Reis, da Mocidade ou Juventude, e dos “Caretos”. Podem ainda fundir-se com as festas em honra a Santo Estêvão – este é o padroeiro da juventude indigitado pela Igreja católica e, sendo esta a festa dos Rapazes, esta associação acaba por fazer sentido. Esta fusão de uma festa que possui características de fundo profano – a presença e actuação dos mascarados, a crítica social, as provas de destreza física – à festa em honra de Santo Estêvão demonstra a apropriação, feita por parte da Igreja Católica, sobre estas festas.

Com que aspectos simbólicos se prende esta festa dos rapazes? Ela é acima de tudo um rito iniciático tradicional de puberdade que ocorre em regiões mais isoladas, representando a passagem dos jovens solteiros do sexo masculino e com cerca de dezasseis anos, que assumem a liderança nesta festa, da sua idade juvenil para a idade adulta.

Durante estas celebrações, a utilização da máscara por parte dos jovens permite a inversão das normas quotidianas. Deste modo existe uma nítida similaridade a «antigas sociedades secretas masculinas, onde os moços tinham de prestar certas provas de iniciação e depois praticavam mascaradas e danças com o fim de amedrontar as mulheres» (DIAS, 1984:179). Alguns autores associavam estas cerimónias a antigas festividades e rituais que ocorriam aquando do solstício de Inverno, um pouco por toda a região transmontana, estando hoje em dia presentes nalgumas localidades, como veremos.

Para além da admissão dos jovens na idade adulta, outro princípio fundamental da festa parece ser o fortalecimento das relações entre os indivíduos da localidade, nomeadamente os jovens, afirmando uma identidade local e colectiva. É devido a esta coesão e ligação que se pretende que a festa é exclusivamente preparada pelos jovens que assumem o cargo de mordomos ou meirinhos, podendo-se ainda considerar que as loas sejam um momento fulcral, devido ao efeito catártico e de expurgação dos males locais, que actuam purificando a entrada no ano que se aproxima. Além destes aspectos, e como afirma Benjamim Pereira, existe um sincretismo nesta festa, com a simultaneidade de um rito de passagem e de um rito agrícola.

Esta festa ocorre entre o dia 25 de Dezembro e o dia 6 de Janeiro. No entanto, em várias localidades do distrito de Bragança, esta festa inicia-se a 1 de Novembro, dia em que ocorre a recolha e arrematação da lenha.

Dos seus momentos principais destaca-se as rondas, que visam testar a disciplina e o compromisso dos jovens de cada localidade, a missa, momento solene em que é obrigatório estar presente – à excepção dos mascarados, aos quais o espaço sagrado é interdito –, e as refeições comunitárias. Em todos estes momentos ou etapas o jovem neófito terá de mostrar que está pronto a adquirir o status de adulto.

 

Sequência geral da festa dos rapazes:

 

Outros aspectos da festa:

 

Fontes e Bibliografia:

Actas do Congresso A Festa Popular em Trás-os-Montes, 1995, Bragança, ed. do Nordeste Lda.

DIAS, Jorge, 1984, Rio de Onor Comunitarismo Agro-Pastoril, 3ª ed., Editorial Presença.

Enciclopédia Temática Portugal ModernoTradições, 1991, Lisboa, Pomo Editores.

“Festas dos Rapazes e de Santo Estêvão”, Ethnologia – Revista do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/UNL, nº 3/4, Ulmeiro, número duplo, Outubro 1895/Setembro 1986: 261-264.

GODINHO, Paula, 2006, Lição de agregação, aporias do «popular»: a Festa dos Rapazes de Varge, novas produções rituais e partimonialização, Dep. Antropologia FCSH-UNL, Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa.

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PEREIRA, Benjamim [coord.], 2006, Rituais de Inverno com Máscaras, Bragança, Instituto Português de Museus.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.