Grijó de Parada, Festa de Santo Estêvão

Toda a organização da festa cabe à mordomia, composta pelo “Rei” e pelo “Bispo” – estes são os dois mordomos centrais, havendo ainda os mordomos ajudantes e quatro ou cinco meirinhos. Estes dois últimos grupos, para garantirem a execução da festa, fazem um peditório pela aldeia – já sabem de quanto dinheiro irão necessitar neste momento –, aqui conhecido como finta.

Segundo Benjamim Pereira, durante o mês de Agosto ou de Setembro, toda a mordomia efectuava uma ronda, na qual procuravam aqueles que queriam participar na festa (PEREIRA, 1973:76). Além disso, era-lhes dado centeio com o qual, dias antes da festa faziam “as «carolas» e as roscas de Santo Estêvão” (PEREIRA, 1973:78).

As suas insígnias são bastante semelhantes às dos jovens que efectuam estes cargos noutras localidades. O “Rei” e o “Bispo” usam coroas e uma cana com uma maçã na ponta. Sob a maçãcostumam estar atadas duas linhas e por cima da maçã é colocado um ramo de flores.

No dia de Santo Estêvão (26 de Dezembro) os mordomos, os meirinhos e o gaiteiro, ainda continuam a efectuar a ronda de Boas Festas. Em simultâneo com esta é feito um peditório, sendo os meirinhos aqueles que estão encarregues de recolher as esmolas.

Seguidamente ocorre a missa, à qual se sucede uma procissão com o andor de Santo Estêvão até ao local em que se encontra a mesa em honra do mesmo. A disposição desta procissão é a seguinte: gaiteiro à frente, seguido da cruz, do padre, dos mordomos, do meirinho e do povo.

 

“Mesa do Povo” ou de Santo Estêvão e “Mesa da cabeceira”

São os mordomos que organizam a festa e, implicitamente, são eles que tratam da compra de géneros alimentícios para a refeição – peixe (bacalhau e sardinhas – são dadas quatro sardinhas a cada habitante), castanhas cozidas (mamotas), tremoços, pão e vinho – e que arranjam esta mesa. Os habitantes também podem oferecer alimentos, nomeadamente as “carolas” de pão.

Em 2009, na manhã do dia 25 de Dezembro, realizou-se a matança do porco.

Antes de se iniciar a refeição o padre, que efectuou a missa e acompanhou a procissão, benze a mesa. Os “caretos”, que estão presentes durante toda a refeição, não interferem com este acto sagrado, chegando mesmo a afastar-se.

Em Grijó de Parada, para além da “Mesa do Povo” encontramos a “Mesa da cabeceira” – também conhecida como “Mesa dos Mordomos”. O altar de Santo Estêvão é colocado entre as duas mesas.

Na “Mesa de Cabeceira” sentam-se as seguintes figuras: os principais mordomos, ou seja o “Rei” e o “Bispo”, e os meirinhos, que exerceram funções no ano presente bem como os que exercerão no ano seguinte, o homem mais pobre da localidade, o mais velho, o padre, o presidente da junta de freguesia e o gaiteiro.

É ao fim da tarde que se efectua a transmissão de poderes, feita pelo padre local. De seguida as novas figuras da mordomia deslocam-se para as suas casas, onde recebem todos aqueles que os seguirem.

Benjamim Pereira dá-nos conta que, na noite do dia 26 de Dezembro, era feita uma "galhofa" num curral – esta pode ser feita entre um jovem de Grijó e um de Parada.

No dia 27, o dia do convite, bem cedo, faz-se a ronda da alvorada.

De seguida era feita uma missa na qual a presença era obrigatória.

Após esta cada um almoçava em sua casa e, depois, num sítio específico da localidade iniciava-se a ronda de “boas-festas do Sagrado Nascimento” (PEREIRA, 1973:82), que ainda se mantém hoje em dia.

Neste dia já são os novos mordomos que orientam a festa, nomeadamente o convite, no qual participam bastantes jovens e, claro, os “caretos”.

A tradição da corrida da rosca ainda se mantém. São disputadas as roscas que foram recolhidas durante as rondas. São os “caretos” quem visa pela realização da prova sem percalços, mantendo todos aqueles que assistem longe da pista onde se realizará a corrida.

A "galhofa" ocorre à noite e consiste numa luta física exercida entre dois rapazes. É feita num curral e as raparigas não podem assistir a este momento.

O prémio das duas provas previamente citadas são as roscas, fraternamente divididas entre o vencedor e o perdedor.

Através da actuação dos jovens podemos ver, mais uma vez, que esta festa também visa marcar a passagem dos jovens ao status de adulto.

No dia 28 de Dezembro, ocorria a “mascarada” na qual participavam três ou mais “caretos”, à semelhança do que também acontecia em Parada.

 

Máscara e Fato:

Esta máscara é feita de madeira. No entanto, segundo Benjamim Pereira, a máscara exibida em Grijó de Parada era feita de folheta. Nela podemos encontrar esculpidas as orelhas, os olhos – são vazados – as sobrancelhas e o nariz. A boca, de um modo geral, encontra-se aberta, possui dentes, e da mesma pende uma língua, pintada de vermelho. Pode ainda ter um bigode pintado de preto, bem como as sobrancelhas.

Os “caretos” usam um casaco, feito de colcha vermelha, do qual pende um capuz. Todo o fato é franjado, e possui chocalhos.

Os mascarados ransportam ainda uma maçã e uma espécie de cajado.

 

Fontes e Bibliografia:

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PESSANHA, Sebastião, 1960, Mascarados e máscaras populares de Trás-os-Montes, com desenhos de Mily Possoz, Lisboa, Livraria Ferin.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.