Ousilhão, Festa de Santo Estêvão

A festa de Santo Estêvão em Ousilhão também já foi conhecida por “festa do Natal” (PESSANHA, 1960:47).

Além disso, ocorreram alterações ao nível da mordomia da festa que convém referir.

 

Figuras participantes na festa:

Antigamente era o “Rei” o único mordomo que com o seu poder absoluto organizava e dirigia a festa. Podia exercer este cargo por escolha do povo ou por vontade do próprio jovem, que queria pagar uma promessa.

Hoje em dia, ao contrário do que acontecia, a organização da festa cabe aos mordomos, o que demonstra que “o “Rei” detém [apenas] um poder simbólico” (TIZA, 2004:114). Esta figura faz-se sempre acompanhar de dois “vassais”.

Esta tríade apresenta insígnias bastante semelhantes sendo, no entanto, as do “Rei” aquelas que mais poder ostentam. Usam os três uma coroa, sendo a do “Rei” mais ornamentada. Este último possui ainda um ceptro que tem uma laranja no seu topo, enquanto os “vassais” ostentam apenas uma pequena varinha ou vara, se bem que Benjamin Pereira nos dÁ conta de uma coroa feita só de aro usada por estes rapazes com cerca de doze anos.

Os “Moços”, que são quatro, parecem manter na actualidade grande parte da actuação de que, por exemplo, Benjamim Pereira nos dá conta. Como adereços e insígnias estes quatro jovens usam um chapéu normal em torno do qual atam uma fita de seda que lhes cai sobre costas, um lenço sobre os ombros, atado na zona do peito, e as castanholas.

Durante as rondas fazem-se acompanhar pelo som da gaita-de-foles, da caixa e do bombo (este parece ter sido introduzido recentemente), ao qual juntam o som das castanholas e, para além de pedirem esmola para a Nossa Senhora da Alegria, dançam e cantam à porta de cada casa.

Os mascarados, ou “máscaros”, podem ser interpretados por crianças, por jovens e por adolescentes, tanto do sexo feminino (PEREIRA, 2006:22) ou masculino e são uma presença fundamental nesta festa, uma vez que acompanham sempre as figuras de poder já mencionadas durante as rondas. Os mascarados pedem para si “castanhas, doces e chouriços”. (PEREIRA, 1973:64)

 

25 de Dezembro:

No dia 25 o “Rei”, os quatro “moços” por ele convidados e o gaiteiro – este fazia-se acompanhar pelo tambor e pelas castanholas (PESSANHA, 1960:47) – fazem uma ronda a todas as casas da localidade – ronda do peditório ou de Boas Festas –, que se inicia e termina no largo da igreja. São seguidos por um grupo de mascarados, cujo comportamento é contrastante com o dos jovens, uma vez que se insere numa linha de liberdade, típica de quem enverga a máscara. Por outras palavras, os mascarados dançam, chocalham e gritam, sendo este o modo de expurgar os males existentes na localidade.

Durante esta ronda os “moços” visitam todas as casas da aldeia, nas quais saúdam quem nelas mora. Seguidamente cantam e dançam – as coreografias são ensaiadas e o seu canto e dança servem, de um modo bastante simbólico, para atrair as boas energias para o ano que se avizinha – em honra dos moradores das mesmas, que acabam por lhes oferecer bebidas, doces e dinheiro. Todas as esmolas na sua forma monetária recolhidas são para a Igreja.

Neste dia era feita uma "galhofa" num curral.

 

26 de Dezembro:

No dia seguinte, dia 26 de Dezembro, os “moços” e o gaiteiro voltam a visitar todos os moradores numa ronda denominada como “ronda das “Alvoradas” (TIZA, 2004: 117) que, desta vez, é efectuada em honra ao Santo padroeiro. É por isso que a saudação é dirigida a Santo Estêvão, bem como o dinheiro que angariam. Benjamim Pereira fala-nos da alvorada de dia 26 de Dezembro, na qual se encontravam os mesmos participantes, como sendo apenas uma alvorada de boas-festas.

Após a ronda os mascarados, transportam o “Rei” e os “vassais” até à igreja, onde se celebrará uma missa em honra de Santo Estêvão. Estas duas figuras, segundo Benjamim Pereira, eram benzidas pelo padre logo à entrada da Igreja.

Durante esta missa, e à semelhança do que acontece na festa dos rapazes, todos aqueles que organizaram a festa – os “mordomos”, os “moços” – e aqueles que são símbolos do poder da mesma – o “rei” e os “vassais” – assistem à missa junto ao altar.

Os pães a serem distribuídos durante a refeição são benzidos durante a missa (são os moços que os levam). Crê-se que este pão tem poderes profilácticos e terapêuticos, e por isso não é totalmente comido, mas sim guardado durante o ano, podendo ser usado quando é necessário – é usado para curar a doença de um animal, por exemplo.

Após a missa, havia um cortejo até à casa do “Rei”, e este oferecia pão e vinho a todos aqueles que o acompanhavam.

No final da missa ocorre uma procissão com o andor de Santo Estêvão. Este é transportado pelos “moços” que se fazem acompanhar do padre e dos músicos. Todos aqueles que assistem às celebrações juntam-se nesta procissão que apenas dá uma volta em torno da igreja e se dirige para o largo principal da aldeia, onde é feita a “Mesa de Santo Estêvão” ou a “Mesa do Povo”.

 

Mesa de Santo Estêvão:

A Mesa de Santo Estêvão é uma refeição comunitária feita no largo principal da aldeia, ao ar livre. São as raparigas que preparam esta mesa, composta por toalhas de linho brancas, da qual fazem parte alimentos simples, como doces e frutos regionais, o pão e o vinho – estes dois últimos são distribuídos pelos “moços” – oferecidos pelos habitantes locais. Estes alimentos são benzidos pelo padre no final da refeição.

A disposição dos elementos presentes em vários momentos da festa, que temos vindo a citar, acaba por ser significativa, uma vez que existe uma mesa específica para algumas pessoas. Nessa mesa, o pároco ocupa lugar numa das suas extremidades, estando ao seu lado o “rei” e os seus “vassais”, tanto os que efectuaram funções no presente ano, bem como os que lhe irão suceder.

Quando a refeição finda o padre local reza e relembra os mortos.

Só neste momento litúrgico é que os mascarados que, durante toda a festa efectuaram as suas tropelias, retiram a máscara do rosto e posicionam-se em redor da mesa. Este descobrir do rosto, portanto, da revelação da sua identidade é algo recente, uma vez que os mascarados, até há algum tempo atrás, se mantinham no anonimato. Além disso, deixaram de perseguir as raparigas, contra as quais investiam com um cariz eminentemente sexual, já que as próprias também se mascaram.

Finalmente ocorre outro momento bastante importante: a transmissão do poder. É o sacerdote, ou seja, aquele que detém o poder religioso, que retira as insígnias dos “reis” e dos “vassais” – a coroa e as varas – e as dispõe na cabeça e nas mãos dos novos, respectivamente. O sacerdote apenas nomeia os jovens, mas não os escolhe.

A seguir a este momento de nomeação dos que exercerão o poder no ano seguinte surge o momento da sua aclamação. Os novos eleitos são transportados num cortejo – e acompanhados por todo o povo – até às suas casas, onde todos bebem vinho e comem pão, uma vez mais distribuídos unanimemente pelos “moços”.

Era feita uma arrematação da mesa, que ajudava a pagar as despesas da festa.

A festa continua à noite com um baile, mais conhecido por "galhofa" – esta já é feita pelo novo “rei” – durante a qual os músicos continuarão a animar a festa.

 

Máscaras e Fatos

São os mascarados que preparam o seu fato. Este é feito “de colcha de lã com franjas coloridas, onde predomina o vermelho e o amarelo” (TIZA, 2004:115). Verificamos também outras cores, como o azul e o verde. Do fato faz ainda parte o capuz.

A máscara é trabalhada por artesões locais ou pelos rapazes. Geralmente é feita de madeira, as maçãs do rosto são salientes, e possui nariz e sobrancelhas – todos estes elementos são esculpidos.

A zona dos olhos é vazada, tal como a boca.

Algumas máscaras podem ter a língua de fora da boca, barba ou até mesmo dentes esculpidos.

Outras possuem uma serpente num dos lados da cara e um chapéu.

Como adereços os mascarados usam um pau, o “cajoto”. No estudo de Benjamim Pereira este era “em forma de T” e na ponta do mesmo era visível uma bola de trapo ou uma bexiga (PEREIRA, 1973:64). Este pau serve-lhes de apoio.

Atam chocalhos e campainhas na zona da cintura, os quais fazem questão que se ouçam durante as suas actuações, nomeadamente enquanto saltam e gritam, atemorizando quem encontram nas ruas das aldeias até lhes darem dinheiro.

 

Fontes e Bibliografia:

LOPES, Aurélio, 2000, A Face do CaosRitos de Subversão na Tradição portuguesa, Alpiarça, Garrido artes gráficas.

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PEREIRA, Benjamim [coord.], 2006, Rituais de Inverno com Máscaras, Bragança, Instituto Português de Museus.

PESSANHA, Sebastião, 1960, Mascarados e máscaras populares de Trás-os-Montes, com desenhos de Mily Possoz, Lisboa, Livraria Ferin.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.