Significado e Simbologia

As máscaras desempenham um papel fundamental nas festas do ciclo dos doze dias (Van Gennep) e do Carnaval, uma vez que dinamizam as diferentes celebrações que ocorrem neste período, nomeadamente no Nordeste Transmontano. Vemos assim que as figuras mascaradas surgem apenas cíclica e ritualmente, com uma função específica. Que função tão importante é esta? Basicamente, e segundo o que muitos consideram, são os mascarados que revitalizam e dinamizam a comunidade e o ano que se aproxima, garantindo a prosperidade de ambos. Benjamin Pereira afirma que a máscara tem três finalidades: “propiciatórias, apotropaicas, profilácticas” (PEREIRA, 1973:11).

O mascarado que surge e actua em público suspende por momentos a realidade conhecida, a realidade quotidiana. Além disso, e talvez tentando encontrar um elemento em comum com esta suspensão da realidade, alguns eruditos referem que durante a Antiguidade a utilização de máscaras não tenha tido uma função meramente profana, sendo antes um “elemento de ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos, entre o homem e a divindade” (TIZA, 2004:18).

Provavelmente a partir desta ligação e da actuação dos mascarados estes tenham sido intimamente relacionados com o Diabo, aliás, os mascarados eram vistos como sendo o próprio Diabo. Na base desta associação poderá estar a sua actuação autónoma, que há décadas atrás era muito mais severa.

 

Função catártica da máscara e a sua função ritual

Ao envergar uma máscara existe, por um lado, a ocultação da verdadeira identidade que, no entanto, não é o único objectivo do uso da máscara, já que esta também revela, acabando por ser um veículo de libertação, ou seja, de catarse. É nesta libertação que vemos muitos dos actos realizados pelos mascarados, nomeadamente na folia que ocorre no Carnaval, por exemplo. Este aspecto de assumir uma nova personalidade está intimamente ligado à etimologia da própria palavra máscara, persona em latim, cujo significado é, nada mais, nada menos, do que personalidade.

O mascarado assume-se então como uma entidade superior, que transgride os padrões, as regras e normas sociais, que faz o que bem lhe apetece como e quando lhe apetece, e esta transgressão pode ser entendida a par do nascimento de um eu novo – tenhamos também em atenção a altura em que estas festas ocorrem, que está intimamente ligada com a renovação do ano. Será também curioso apreender e associar este nascimento, esta exaltação daquilo que estava contido dentro de cada um, a par do nascimento de elementos naturais, tais como as plantas. As festas nas quais os mascarados estão presentes acontecem durante o Inverno, integrando um ciclo agrário.

Assim, a máscara é um elemento ligado a momentos de extrema relevância na vida comunitária, estando também ligada à morte e a rituais de comemoração da mudança de estações. De algum modo, esta subversão, este caos temporário imposto pelas máscaras, implicam em si um emergir da ordem, uma regeneração que será benévola para o ano que se avizinha e que se relaciona com a fecundidade.

Para finalizar, não nos esqueçamos de quem, tradicionalmente, utiliza as máscaras nestas celebrações: os jovens. É deste modo que vemos que a máscara também é usada num rito iniciático, como veremos, por exemplo, na festa dos rapazes, e que faz com que o jovem dê lugar ao adulto.

 

Os mascarados e a crítica social

Em alguns pontos da região em que estas festas ocorrem, um dos momentos altos prende-se com a recitação das loas, ou seja, a crítica social. As entidades que exercem esta sátira são os mascarados, o que vem reivindicar o já mencionado carácter libertino destas figuras. Mas este momento da festa não se prende somente com uma sátira jocosa ou, melhor dizendo, não se fica por aí: as críticas efectuadas a acontecimentos permitem passar ao registo público o conhecimento de algumas situações que permaneciam camufladas, frequentemente associadas a comportamentos socialmente rejeitados e/ou referentes a grupos sociais dominantes – logo, com capacidade de exercer represálias se a denúncia ficasse “às claras”.

 

Fontes e Bibliografia:

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.