Tó, Festa do Santo Menino ou dos Reis

Esta celebração ocorre no primeiro dia do ano. É organizada por um mordomo que prepara todos os aspectos da festa, desde a contratação dos músicos até aos peditórios e ao almoço que se realizará.

Ao mordomo, jovem solteiro, juntam-se outros três jovens com cerca de dezasseis anos. Estes jovens assumem uma única vez na vida os seguintes papéis dinamizadores da celebração: “Moço”, “Sécia”, e “Farandulo” – esta ordem é representativa da sua ordem de poderes, ou seja, dos diferentes anos em que organizam a festa, encontrando-se o mordomo na terceira posição.

Após a missa do galo, é acendida uma fogueira com bocados de lenha que os jovens vão recolhendo. Faziam-no rondando a povoação com carros de bois, hoje em dia fazem-no com tractores.

A primeira etapa desta celebração é a alvorada, dada pelo mordomo e pelo conjunto instrumental no dia dedicado ao Menino (primeiro dia do ano). As quatro figuras centrais da festa e os músicos juntam-se para uma outra ronda (peditório) por toda a aldeia após o pequeno-almoço e que durará até ao meio-dia.

Podemos dividir a actuação destas quatro figuras em dois grupo opostos. O “Farandulo”, tenta assediar sexualmente a “Sécia”, já não de um modo tão obsceno como acontecia, e roubar-lhe as peças que lhe foram oferecidas. É o moço que tenta impedir estas investidas representando este, assim, a ordem e a integridade daquela por quem se faz acompanhar.

Esta luta entre estas duas figuras ocorre durante o peditório, e é representativa de uma luta entre opostos da qual o bem sairá vencedor.

Ao peditório segue-se a missa, após a qual ocorre o leilão das esmolas e o ramo da “Sécia”. O produto do leiléo reverte a favor da festa do ano seguinte.

Finalmente as quatro figuras principais da celebração, juntamente com o gaiteiro, almoçam em casa do mordomo.

Podemos ainda salientar outros momentos importantes, como a corrida da rosca e a transmissão do poder do mordomo. Este caberá ao jovem que exerceu o papel de “Sécia”, e é para a casa deste que se faz um cortejo, ao qual se segue a entrega das insígnias do mordomo.

A festa segue noite a dentro com um baile onde todos participam alegremente.

 

 

“Farandulo”, “Sécia” e “Moço”

 

“Farandulo”

O jovem que encena esta personagem tem a cara pintada de carvão.

Usa umas calças e um casaco ao contrário, bem como uma saia até ao joelho. Nos pés calça umas botas. Em cada uma das pernas tem uma campainha.

Apresenta uma espécie de coroa de cartão preto, no topo da cabeça.

A tiracolo leva um saco onde coloca as ofertas que lhe vão sendo dadas, e na mão um pau em forma de V, na ponta superior.

 

“Sécia”

O jovem que faz de “Sécia” veste-se de mulher. Geralmente usa um casaco e uma saia, meias de renda brancas e sapatos de mulher.

Na cabeça usa um véu de renda que, tal como as meias, é branco.

Usa ainda adereços tipicamente femininos, como um colar, brincos e anéis.

Transporta consigo uma cesta, na qual deposita as esmolas (monetárias) que lhe vão sendo dadas. Faz-se acompanhar, de um ramo vertical – este tem uma laranja espetada no topo – dos quais pendem outros horizontais onde são depositadas as ofertas.

 

“Moço”

Este jovem veste-se normalmente, com fato e gravata. Usa um chapéu com uma fita vermelha, à semelhança do mordomo.

No ombro carrega alforges onde guarda as esmolas que lhe sãão dadas, e na mão ostenta uma vara.

Como afirma Benjamim Pereira, estas figuras representam três elementos essenciais: a masculinidade, a fecundidade e a fertilidade. O primeiro elemento, a masculinidade, mais uma vez, leva-nos a relacionar esta festa e a actuação dos jovens com um rito de passagem. Os dois últimos elementos estão obviamente relacionados com o rito agrÍcola.

 

Fontes e Bibliografia:

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.