Torre de Dona Chama, Festa de Santo Estêvão

Já teve máscaras, que saíam no dia 26 de Dezembro.

Em Torre de Dona Chama a festa em honra de Santo Estêvão inicia-se no começo do mês de Dezembro, “três domingos antes do Natal” (PEREIRA, 1973:92). É nesta altura que é efectuado um peditório, chefiado pelos quatro mordomos – durante o cortejo estes fazem-se acompanhar de música, normalmente dos bombos –, que visa angariar fundos para a realização da festa e para Santo Estêvão. Os “caretos” já marcam presença, fazendo um peditório para si mesmos.

Os mordomos dividem-se em dois grupos, sendo um constituído por jovens solteiros e o outro por homens casados: um deles representa/exerce uma função religiosa, e o outro actua na esfera do profano. Deste modo são representativos de grupos opostos – “caretos” e “caçadores” – que no final da festa simulam uma luta, como veremos, entre cristãos e mouros. Os cristãos são os “mordomos” e os “caçadores”, os “mouros” são os “caretos” e as “mouriscas”.

 

25 de Dezembro:

Nesta noite, onde a música tradicional já marca presença, lançam-se os “jogos à praça”, num cortejo, durante o qual os jovens param defronte de cada casa onde existe uma pessoa visada na crítica. O que os jovens fazem é avisar a pessoa de que deverá participar no dia seguinte neste momento (“por ordem de El-Rei”). A cada pessoa é atribuída uma característica, conhecida de todos, que será levada à rua (TIZA, 2004: 125).

É também nesta noite que se efectua o roubo dos burros. Estes animais são retirados da posse dos seus donos durante a festa, pois é necessária a sua utilização em alguns momentos da mesma. Depois do roubo, aqueles que o efectuaram, juntam-se aos outros elementos da população, que já se encontram junto à fogueira de Natal, feita num largo da localidade.

Benjamim Pereira fala-nos do convívio que se prolonga pela noite fora, bem como numa espécie de cortejo no qual várias crianças, que levam consigo chocalhos e, por isso, representam uma espécie de rebanho, seguem um homem que faz papel de pastor. Todos recebem peças de fumeiro, vinho e dinheiro.

Durante toda a noite ocorrem cavalgadas pelas ruas de Torre de Dona Chama, que duram até à manhã seguinte. Quem as efectua vai comendo e bebendo café, para se manter acordado e representando episódios caricatos.

 

Dia 26 de Dezembro:

O primeiro momento que ocorre bem cedo é a chamada “ciganada”, que não passa de uma encenação burlesca, feita pelos rapazes, que fingem vender os burros anteriormente roubados.

Esta cena é acompanhada de música (bombos e caixa) e, quando rompe a manhã, os “caretos” também se juntam a estes momentos, contribuíndo com as suas actuações. Será importante mencionar neste momento que ao longo de toda a festa dos “caretos” actuam per si.

A estas figuras juntam-se ainda as “madamas”, entenda-se homens que se mascaram de mulheres ou vice-versa, e que fazem tudo para não serem reconhecidos – é por isso que cobrem o rosto com renda. Qual é a sua função? Ora, estas figuras “preparam as armas para a batalha final” (TIZA, 2004:126), referida no início do presente texto.

Na missa, momento solene e em honra a Santo Estêvão, vamos encontrar figuras que não encontramos em mais nenhuma localidade. Essas figuras são o “rei mouro” – Benjamim Pereira diz-nos que este era um jovem com cerca de dez ou doze anos – que se encontra junto ao altar-mor e está acompanhado por três “mouriscas” do seu lado esquerdo, três do seu lado direito. Atrás destas figuras ficam os mordomos e os caçadores – três destes ficam à entrada da igreja, a fim de disparar armas de fogo nos momentos adequados.

O pão é benzido pelo padre após o almoço. A este pão, à semelhança do que acontece em Ousilhão, são associados poderes curativos, o que faz com que seja usado quando os animais se encontram doentes.

O último momento da festa é a luta dos opostos: o “cortejo da «mourisca»” (PEREIRA, 1973:94). Os dois grupos rivais, caçadores e mordomos versus “caretos” e mouriscas, simulam uma disputa (encenada) simbólica entre si. Vão “lutando” enquanto percorrem a localidade, e o primeiro grupo tenta atingir o castelo que pertence ao “rei mouro”, queimando a mourisca. É deste modo que os bons vencem o mal. Surge o “cachera” (TIZA, 2004:130), figura que alerta a população que apesar da vitória do bem o mal nunca cessa. Esta figura será a mesma que Benjamim Pereira menciona, ou seja, um mascarado coberto de pele de animal e com chifres na cabeça, que sai após esta luta, e espalha cinzas (PEREIRA, 1973:94)

Existia uma última ronda pela aldeia, feita pelo grupo vencedor (caçadores e mordomos). Em frente a cada casa é disparado um tiro.

 

Fontes e Bibliografia:

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PEREIRA, Benjamim [coord.], 2006, Rituais de Inverno com Máscaras, Bragança, Instituto Português de Museus.

PESSANHA, Sebastião, 1960, Mascarados e máscaras populares de Trás-os-Montes, com desenhos de Mily Possoz, Lisboa, Livraria Ferin.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.