Varge, Festa dos Rapazes

A título de curiosidade, e antes de abordar as etapas da festa, convém apenas salientar que, ao contrário do que se esperaria, durante o período de Natal, é elevado o número de pessoas, e nomeadamente de rapazes, que retornam a Varge para viver a festa.

O primeiro momento da festa ocorre no dia de Todos-os-Santos, a um de Novembro, no qual os rapazes recolhem a lenha dos Santos – “ida aos torgos” (GODINHO, 2006:40) –, recolha à qual se segue o rito de arrematação.

Outro momento de preparação da festa, nomeadamente no que diz respeito às refeições, é o abate da vitela (dia 24 de Dezembro), levado a cabo pelos mordomos e pelos rapazes. A vitela era até há pouco tempo o principal alimento consumido nas refeições efectuadas ao longo da festa, ao qual se veio juntar o marisco, bem como a “cerveja e [os] refrigerantes” (GODINHO, 2006:41), que surgem a par do vinho. Outrora as refeições eram preparadas pelos mordomos, numa casa desabitada.

De um modo geral, todas as noites de sábado do mês de Dezembro são efectuadas rondas pela aldeia – apenas a casa daqueles que estarão directamente envolvidos na festa –, nas quais os rapazes são acompanhados pelo gaiteiro.

É após a consoada em família que, num moinho abandonado, os rapazes ensaiam uma última vez as loas.

No dia 25 de Dezembro os rapazes encaminham-se para a igreja a fim de assistir à missa, após a qual beijam o Menino. Então, saem apressadamente da igreja para envergarem as máscaras que serão essenciais para a restante realização da festa, nomeadamente o momento que se segue: as loas. A particularidade deste momento festivo em Varge prende-se com o facto de cada mascarado criar as quadras e de as dizer sem tirar a máscara da face, dificultando assim a sua identificação. Além disso, os mascarados podem efectuar uma representação teatral a par do que estão a dizer, encenando – espalhafato – o papel das personagens criticadas por eles mesmos.

A seguir a este momento de descontracção e riso, pelo menos para alguns, ocorre a ronda das Boas Festas. Mordomos, gaiteiros e “caretos” participam neste momento, exercendo, cada um, o papel que lhe diz respeito. Será importante mencionar que o comportamento dos “caretos” de Varge, nos dias de hoje, ganha em espectacularidade o que perdeu em subversão.

Os mordomos usam um chapéu e uma vara (ou ramos) – são as suas insígnias –, na qual vão colocando os presentes que recebem da população (produtos regionais e de colheita, ou até mesmo dinheiro), o que nos leva a associar de um modo intrínseco esta ronda a um peditório.

Como não poderia deixar de ser, durante ceia é permitido abusar da comida e da bebida. Além disso, este momento da festa caracteriza-se pela dança que, num primeiro momento, se efectua ao som da gaita-de-foles, prolongando-se pela noite dentro graças à aparelhagem – mais um reflexo dos tempos modernos.

No dia 26 de Dezembro, pela madrugada, ocorre a alvorada, na qual os mordomos são acompanhados pela música tradicional (tambor, ferros e gaita-de-foles). Esta ronda visa juntar todos os rapazes da população. Caso não o façam, dá-se uma segunda ronda, na qual, se for necessário, os rapazes serão tirados à força das camas, levados para a rua sem roupa, ou obrigados a ir para o rio e, além disso, terão de pagar o mata-bicho a todos os rapazes. Esta obrigação da presença de todos os jovens demonstra muito bem o sentido de responsabilidade que os mesmos devem ter se querem ser inseridos na idade adulta.

A seguir é efectuada uma missa dos rapazes – tanto nesta missa como na do dia anterior os rapazes ocupam um lugar privilegiado, no altar-mor –, que é dedicada a Santo Estêvão.

Após a missa ocorre um almoço importante, que é exclusivo aos rapazes, e no qual os mordomos que no ano presente exercem o seu cargo, escolhem os novos mordomos, para as mesmas funções no ano seguinte. Ocorre assim a transmissão de poderes e a perpetuação da festa.

A corrida da rosca ocorre na tarde do dia 26 e é um momento cerimonial relevante, já que testa e prova a destreza e a capacidade física dos rapazes, tal como a fraternidade entre todos – o vencedor partilha o seu prémio, uma rosca de pão, com todos os outros jovens. No passado os vencidos tinham de pagar a Nossa Senhora da Nazaré (PEREIRA, 1973:44).

Finalmente, no último momento da festa, o jantar e o baile que se lhe sucede, dá-se uma comunhão entre rapazes e raparigas. Hoje em dia este já não ocorre ao ar livre mas sim “num recinto comunitário” (GODINHO, 2006:17), e a música tradicional foi substituída pela aparelhagem, como já tínhamos visto.

Antigamente, no dia 6 de Janeiro os rapazes cantavam os Reis e, as ofertas que recebiam eram irmãmente divididas entre si.

 

“Caretos de Varge”

Fatos

Estes “Caretos” usam casacos – de sarja ou poliéster – e calças – de poliéster –, estando o seu fato coberto de vários tecidos franjados e coloridos. Podem ainda ter bolas de lã na cintura, ou usar dois cintos cruzados no peito, com campainhas. Do seu fato faz ainda parte um capuz, também recoberto por fitas de tecido colorido.

 

Máscaras

As máscaras destes “Caretos” são geralmente feitas de folha ou chapa de zinco. Podem ser pintadas de vermelho, amarelo, preto, verde, castanho, azul. branco.

De um modo geral todas elas possuem um recorte na zona dos olhos. O nariz também faz parte da máscara, sendo geralmente pontiagudo. Na zona da boca tambÊm encontramos um recorte e, por vezes, este é preenchido por dentes ou por uma língua pintada que sai da boca.

O bigode, a barba ou até mesmo os olhos e as sobrancelhas podem ser salientados sendo pintados.

Algumas das máscaras possuem chifres.

Para além das pinturas que representam o cabelo e o bigode, por exemplo, podemos encontrar outras pinturas: bolas, cicatrizes, setas, números, óculos, etc.

Usam cajados.

 

Fontes e Bibliografia:

 GODINHO, Paula, 2006, Lição de agregação, aporias do «popular»: a Festa dos Rapazes de Varge, novas produções rituais e partimonialização, Dep. Antropologia FCSH-UNL, Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa.

LOPES, Aurélio, 2000, A Face do CaosRitos de Subversão na Tradição portuguesa, Alpiarça, Garrido artes gráficas.

PEREIRA, Benjamim, 1973, Máscaras Portuguesas, Lisboa, Museu de Etnologia do Ultramar.

PEREIRA, Benjamim [coord.], 2006, Rituais de Inverno com Máscaras, Bragança, Instituto Português de Museus.

PESSANHA, Sebastião, 1960, Mascarados e máscaras populares de Trás-os-Montes, com desenhos de Mily Possoz, Lisboa, Livraria Ferin.

TIZA, António Pinelo, 2004, Inverno Mágico, Ritos e Mistérios Transmontanos, Lisboa, Ésquilo.